terça-feira, 7 de julho de 2009

Deixa o frio entrar. Quem sabe ele ensina a gente a tremer de novo.

Era um desses dias, em que nada muito especial acontece. Estávamos todos embotinados dentro dum carro, a caminho do aeroporto. Iríamos pegar o Patrick (cunha), que vinha de Porto Alegre de um concurso.
A noite estava clara, nem neblina nem nuvens impediam o céu inteiro de olhar pra baixo. A não ser as luzes somadas da cidade, que do alto faziam tudo parecer amarelado, e do chão apagava a maioria das estrela; só não dava jeito na lua. Esta, quase cheia, se erguia em um dos cantos do céu.


Não aconteceu nada em especial, nada de novo. Mas ao sairmos do carro, o vento gelado quebrou aquela camada de calor que cobria o rosto, o ar limpo revelou cristalino tudo que a sujeira nas janelas do carro e a visão limitada do banco de trás omitia. E à direita, dois grandes aviões taxeavam, certamente carregados de gente que ia e vinha.
Talvez tenha sido a lua, ou o vento frio. Mas me deu uma vontade imensa de continuar.

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Às vezes a gente perde o ritmo, perde o celular, perde a vontade. às vezes a nossa rotina nos rouba a paixão pela coisa toda, e apenas continuamos existindo. Comemos, dormimos, dirigimos, comemos de novo. Mas não o fazemos por nada, a não ser por hábito.
Ando me pegando um pouco demais nesta perigosa repetição. E a gente vai gastanto os nossos minutos com uma displicência suicida. Vamos empurrando nossa luta com uma barriga preguiçosa, sonolenta e mórbida. E a vida vai sem que ninguém perceba.

Eu digo que há mais na vida do que essa morbidez, que este estágio embrionário de um ser que não vai nascer nunca. Há mais pra ser descoberto por trás de todo esse esquema delicadamente construído pra nos fazer buscar o maldito conforto. Neste exato momento, estou encerrando o texto- talvez um pouco mais cedo do que eu gostaria- pra ir tomar um sol e ler um pouco. Acabo de abrir a janela e escutar todo um mundo ali fora que quase me passou despercebido. Até a próxima.

"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tem dias que até mesmo o céu precisa chorar, e sem perceber, do choro do céu brota a vida do chão


Tenho estado meio angustiado.
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Quebrei o pé, fazem 3 semanas. O pior é que não tem nenhuma história heróica, bizarra, nem sequer engraçada por trás disto. Virei o pé dentro de casa, escutei um estalo, e 30 minutos depois, a dor excruciante no pé esquerdo me fez ceder aos convites insistentes de ir pro hospital.
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Com um pé quebrado, a gente anda muito menos (a observação parece redundante, mas é pra enfatizar o MUITO menos, mesmo) pra lá e pra cá. E passa bastante tempo parado, também (de novo, ênfase no "parado"). O problema é que esta conta não tem apenas duas variáveis (x=anda menos, y=descansa mais). Ela é uma equação desgramada de complexa do enésimo grau. E amigos, a conta não fecha MESMO.
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Enfim. Tudo isto pra dizer que passar tempo parado tem sido desafiador. Depender de outras pessoas pra um monte de coisas tem sido desafiador. Pedir favores o tempo inteiro é complicado. Sossegar é uma arte, gente.
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E ontem, resolvi parar de ficar nesse buraco, pensando que a vida anda difícil (mas anda, porque vida não quebra pé). Estava no meu quarto, lendo umas revistas, relendo anedotas auto-biográficas, e tentando ouvir alguns dos pensamentos que corriam apressados pela minha cabeça. Não consegui ouvir nada, e o ciclo de frustração quis começar de novo. (Ciclo de frustração: cabeça cheia + pouca objetividade + nada resolvido + cabeça mais cheia + ... ) Mas sem querer, de canto de olho vislumbrei um céu, que de tão azul dava vertigem. Correu uma lágrima no canto do olho, e me bateu uma gratidão profunda, dessas que parecem vir de dentro dos ossos.
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Se nada mais der certo, conto com a simplicidade incompreensível do seu azul, céu.
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"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Aqui deste momento, do meu olhar pra fora, o mundo é só miragem


Que saudade de desenredar.
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É mais fácil ceder, esconder, se esconder.
É mais fácil mentir, negar, apagar, pagar; é mais fácil não se apegar.
É mais fácil não ir, é mais fácil voltar; é mais fácil escolher aquele mesmo lugar.
É mais fácil esquecer, não entender, não perguntar.
Não sair, não se explicar, não se importar.
É mais fácil arrancar, não arriscar, não se arriscar.
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Cedendo, vamos perdendo a dignidade; escondemos, e vai ficando difícil de mostrar. Se nos escondemos, nos esquecemos do cheiro fresco e livre do lado de fora.
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Mentindo, envenenamos a nós mesmos. Negamos, e sem admitir nos tornamos covardes. Se apagarmos, logo será esquecido. Se pagamos, a vida vai ficando cara; se não nos apegamos, ela já não vale a pena.
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Se não formos, não veremos; se voltarmos, nos arrependeremos. Se escolhemos sempre um mesmo lugar, ele deixa de ser um destino; torna-se uma obrigação.
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Se esquecermos, de que valeu? Se não entendemos e tampouco perguntamos, a miséria de espírito está de bom tamanho.
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Sem sair, não há como chegar; se não temos que nos explicar, não temos quem se importe. Se não nos importamos, vamos desaprendendo o amor.


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Se arrancarmos, não brotará mais nada; sem arriscar não há descobertas; sem se arriscar, não há vida.

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Viva o Som!

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"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Velas dessa inútil poesia em outro litoral

Subindo a rampa que vem do porão do Press Club paro em frente ao portão de metal, esperando o Steve chegar com a chave. Largo as duas lixeiras de plásticos com roda em frente ao portão, e puxo da cintura o velho paninho azul-desbotado. As pernas latejando do cansaço de passar a noite de pé já nem sentem mais muita coisa. Os poucos sons que vêm da Brusnwick Street são os das poucas baladas que ainda estão abertas.
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Subindo a rampa com mais duas lixeiras, Steve puxa as chaves do bolso. Puxa um assunto qualquer, pra distrair um pouco desse negócio de empurrar lixeiras. Vamos até o final do beco deixá-las aonde o caminhão encosta de costume, um céu estrelado imperturbável sopra o seu frescor de sereno sobre as calçadas salpicadas de bêbados. Deixadas as identidades nos numerosos copos noite afora, saem aos poucos das tocas flertando com o bestial. Esbarrando em paredes, postes, carros; vomitam, choram, riem, brigam, caem, desmaiam, sangram. O bizarro se torna normal, corriqueiro, após alguns finais de semana vendo as mesmas coisas. É o espetáculo paradoxal da auto-destruição, esta coisa de ver o corpo humano lutando pela existência, pela sanidade, e o homem entregando-se ao caos, às gargalhadas.
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Descemos, eu e Steve, pra pegar mais um par de lixeiras cada um; é preciso pegá-las rápido, pra dar conta de puxar trinta e poucas lixeiras rampa acima antes que o corpo se dê conta de que, na verdade, ele não tem mais forças. Rampa acima, rampa abaixo; vez por outra é preciso largá-las e arastar para fora um sujeito muito mamado, que à procura de um beco pra mijar ou vomitar, acaba encontrando a entrada pro subsolo da boate.
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A lembrança do cheiro extremamente forte que vinha das dezenas de lixeiras me enche o coração e a cabeça de coisas boas. Talvez só um cheiro forte e estranho como aquele seria capaz de estabelecer um elo forte como este. Como o cheiro quente e ácido que subia da máquina de lavar copos, quando a gente abria a porta e a fumaça que saía encharcava o rosto; a sensação de secar os copos ainda quentes bem devagar, numa quarta feira não muito movimentada; ou então sentir a resistência leve da vassoura no chão salpicado com o vidro de um drink recém derrubado.
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Este tipo de lembranças, em sua maioria, deixa para trás a possibilidade de serem classificadas entre boas e ruins - acabam sendo o nosso único caminho de volta a um mundo que já não existe mais. E quando eu me lembro da dor excruciante nas costas de carregar baldes de 50 kg de gelo, ou uma bandeja com 90,100 copos em um braço só, enquanto o outro cavava o caminho por entre as pessoas, não penso nessas lembranças como boas, ou ruins. Apenas penso nelas, com um carinho e saudade imensuráveis.
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"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."

sábado, 22 de novembro de 2008

E na despedida, tios na varanda, jipe na estrada, e o coração lá

Eu e o pai, em Sydney
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Buenas, caros amigos!
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Outro dia, peguei na mão um presente muito especial. Era um livro, que por sinal ainda nem li, chamado "Além dos Limites do Oceano". Ao vê-lo, não demorei nada a me lembrar de quem eu havia recebido. Abro na flha de rosto pra descobrir uma dedicatória, datada de novembro de 2003, muito antes da idéia de ir pro lado de lá do planeta surgir. Dizia o seguinte:
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"Ao Daniel:

Pra você, meu amigo, que sonha com uma vida muito mais abundante do que o mundo lhe oferece. O que está pra lá do horizonte? Vá lá! Descubra.

Um beijão,

Celso."
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Mal sabíamos que a dedicatória era quase que profética.
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Nestas últimas semanas, como já contei numa postagem anterior, tenho sido invadido por memórias repletas de sensações. As mesmíssimas sensações que eu experimentei nos momentos únicos que a dádiva da memória nos presenteia. E ao ler esta dedicatória, me lembro do momento específico de estar deitando em uma cama, pela primeira vez, na Austrália. Mesmo o cansaço de dezenas de horas de vôo e a euforia de todas as novidades não bloquearam uma das sensações mais fortes que já senti em toda a vida. Um pavor inominável, misturado com uma sensação de liberdade infinita, e uma descarga de adrenalina semelhante talvez àquela que experimentam os que pulam de um avião pela primeira vez.
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Obrigado, pai! Se não fosse por você, muita coisa não teria sido do jeito que é hoje. Te amo!
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Viva o Som!
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"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."

domingo, 9 de novembro de 2008

When I left my home and my family, I was no more than a boy

Hoje é dia 9 de novembro. Há exatamente um ano atrás, eu estava embarcando para a Austrália.

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Não ligo muito pra datas, aniversários, ou coisas do gênero. Mas o que me fez lembrar desta data foram as memórias que me assaltaram, ainda sonolento, na manhã do dia 8.

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Sem nenhuma razão aparente, no meio dos meus pensamentos ainda ofuscados pelo sono me lembrei nitidamente do sentimento das primeiras duas semanas em Brisbane. Acho difícil escrever sobre as minhas percepções daqueles primeiros dias. É como se a alma possuísse um sentido, que pega emprestado os outros cinco e os combina, criando um outro totalmente novo.
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A gente tem mesmo mais do que cinco sentidos. E acho que estes sentidos a mais se revelam quando um dos cinco "normais" é surpreendido pelo belo. O perfume de uma fruta madura, o tocar nas mãos de alguém amado, o panorama de cima de um penhasco, estas coisas excedem a mera percepção e, levando os sentidos normais ao êxtase, criam esta sensação nova, que certamente só cabe no prazer de experimentá-las.

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Combinando tudo o que era novo, belo e diferente, posso dizer que as primeiras duas semanas estão certamente entre as mais intensas. Me lembro perfeitamente da duração dos passos ao subir a escada para tomar café, da luz azul-esverdeada que atravessava o bosque e alcançava a minha janela logo antes de o dia clarear, do acariciar da brisa fresca ao subir as ladeiras em direção ao ponto de ônibus, do cheiro do ar. Sim, ele tinha cheiro. E por mais que fosse ar, como este daqui, era completamente diferente.

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Viva o Som!

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"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Numa esquina do futuro

Galera do Connect Group




Marco 'el loco' peruano, Sharon (Alemanha), Jean Guillaume (França), David (Austria), Jorge (carioquíssimo).
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As lembranças ainda permanecem vivas na memória. Com um pouco de esforço, consigo me transportar pras ruas de Sydney e dou uma passeada por lá, quando a saudade bate mais forte do que a alegria de estar de volta.
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Ando me sentindo meio mal ultimamente. As pessoas me perguntam o que eu achei do país, da Austrália, e eu digo mesmo. Eu amei, e amo aquele lugar. É maravilhoso estar lá, morar lá. O problema é que soa um pouco como aquela multidão de brasileiros ingratos que voltam pra cá dizendo aquilo sim é que é país". Não é nada disso, gente.
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Amo a Austrália. Se tem algum lugar que eu posso chamar de casa além daqui é lá, em Sydney. Mas por mais que a vida seja mais fácil por lá, e que o país seja mais justo, mais organizado, menos corrupto, está pra ser descoberta uma terra mais fértil e persistente que terra brasilis.
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Saudades do vento gélido de julho, dos infindáveis eucaliptos, dos magpies que comiam na mão da gente, dos corvos com o choro engraçado/trágico, dos aborígenes encardidos espalhados por Redfern, das toneladas de chineses, coreanos e asiáticos em geral que tomavam conta das ruas, do jeito discplicente de vestir qualquer coisa, do quartinho 3x2 que mais parecia um forno elétrico nas tardes de sol quente, dos muitos, MUITOS amigos que passaram e se foram, dos outros muitos que ficaram, de suar como um cão nas sextas e sábados à noite embalado pela música ensurdecedora do Zeta Bar, no Hilton.
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O sentimento é de gratidão. Dinheiro nenhum compra um ano de riqueza de vida em uma terra nova, tão estranha e fascinante.
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Viva o Som!
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"Ele é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste."